O Bloco e o debate
Há dias, Jerónimo de Sousa atacou o Bloco de Esquerda por causa da proposta deste quanto à Segurança Social. A crítica fundamental residia na proposta do Bloco de referendar um possível pacto do bloco central nesta matéria. No portal Esquerda.net, o Bloco responde pela voz de Victor Franco.
Passando à frenta o galhardete à CGTP, e a questão da progressividade, que tentarei tratar noutra altura, vamos à questão do referendo.
Claro que se sabe o que o Bloco quer: classicamente descrente do sistema parlamentar, na boa herança da extrema-esquerda, o bloco sabe que só terá uma palavra a dizer "na rua", visto no Parlamento valer o que vale… Mas vamos ao que diz Victor Franco:
É necessário fomentar um grande debate público em torno da Segurança Social porque é um tema estratégico e de especial enfrentamento com a ideologia neoliberal. Este debate remete para a discussão do papel do Estado social, da solidariedade entre gerações e da luta contra o individualismo, do sistema capitalista, dos fundos de pensões, do sistema de impostos, deveres e direitos dos cidadãos e empresas.
Ninguém nega a necessidade do debate, mas veja-se que o Bloco já antecipa uma conclusão do mesmo: "a luta contra o individualismo" (!?). Será nesta legislatura que o bloco vai propôr o casamento compulsivo? Tás tramado Adolfo…
É um debate claramente demarcatório entre esquerda e direita e nele se pode ter clara a forma como o PS se entregou nos braços do neoliberalismo
Mais que um debate entre esquerda e direita, é um debate entre os que querem gerir o destino dos seus descontos, e os que acham que se deve impôr a todos um caminho apenas, caminho aliás que não garante que se receba sequer o total dos valores descontados. Dái a insultar o liberalismo, dizendo que o PS o pratica vai um caminho e pêras…
O referendo é uma ferramenta importante para esse debate público. Estando conscientes da dificuldade da sua aprovação parlamentar, o confronto com o partido maioritário, colocando-o numa posição antidemocrática ao mesmo tempo em que pretende impor medidas de tal impopularidade, é sempre um confronto útil à disputa de consciências
Ficamos pois a saber que o referendo é uma ferramenta para esse debate. Na verdade, o que Victor Franco está a dizer, é que o referendo é uma ferramenta para atingir os seus objectivos políticos, pois, e di-lo logo a seguir, não o consegue aprovar no Parlamento. Mas então o que é um Parlamento? É fixe, enquanto não vai contra os objectivos do Bloco? Quando o Bloco não vinga recorre para o "povo", num referendo que eu vou pagar com os meus impostos, e que onde o debate vai ser instrumentalizado, para no fim - é o mais provável - o "bloco central" levar a melhor? O bloco que se candidate às eleições com o seu programa e veja se as ganha. Agitar com referendo sempre que as coisas não correm como quer, é irresponsável e populista.
É necessário fomentar a participação popular e as formas activas de oposição. A recusa do referendo como última alternativa, tem implícita uma grande confiança na maioria absoluta do PS … para rejeitar a privatização, bem como a proposta do próprio PS de redução das pensões. Ora, se o parlamento impuser uma ruptura no regime, só resta a luta de massas e o apelo à maioria do povo. Afinal porque se convocou um protesto geral para dia 12 de Outubro?
Tem graça como o senhor acha ser necessário «fomentar a participação popular e as formas activas de oposição», mas no mesmo site em que escreve, o "Compromisso Portugal" é apelidado como "espetar do dente dos patrões" - malvados, como se atrevem…
Está visto que ao Bloco só interessa o debate que resulte numa vitória política para o mesmo, e nisso na derrota de Portugal - digo eu, mas que digam os eleitores.

