À Vontade do Freguês






20 October, 2006

Rivolição - Acto 1

Acaba o primeiro acto da "Rivolição". Certamente se seguirão mais "formas originais de protesto", mais barulho e mais tempo de antena.

Luta-se contra a "privatização" do espaço - quando o que está em causa é a adjudicação da exploração por quatro anos. Luta-se pelo serviço público - quando o serviço instalado nem público tem. Luta-se pela educação do público - na lógica de que só os iluminado Lordes da Cultura sabem o que é bom para o povinho, coitadinho. E nesta luta, é óbvio, não se olha a meios. A «atitude [dos ocupantes] mostrou ser plenamente legitimada num contexto que os agentes culturais não dispõem de grandes meios para reivindicar» A velha cantiga das causas fundamentais e para quais a legalidade não se aplica. Mas não fiquemos por aqui. Além de reclamarem que se lhes pague a actividade profissional, independentemente de o público que a visite, reclamavam também que o protesto ilegal tivesse condições. Porque isto de a Câmara cortar a água e a luz é que mostra o fascista que o Rio é, malvado! E ai dos "terroristas" que fizeram ver que a ocupação estava a perturbar o normal funcionamento do teatro. Chantageadores malvados, terroristas intelectuais!

A questão de fundo acaba esquecida. Mas vale a pena repeti-la, para discutir sem demagogias: 

A quem cabe a gestão do Teatro? À CMP.

Pode ou não a CMP contratar uma empresa externa para o fazer? Não se vê porque não, visto até que tal contratação não interfirirá na política que um futuro executio queira ter: um contrato acaba um ano após as próximas eleições.

A Câmara demite-se da sua "obrigação"  de promover a Cultura ao adjudicar a gestão do Teatro? (Primeiro não vejo porque há de a Câmara de ter essa obrigação, se as populações quiserem Cultura, naturalmente aparece alguém a oferecer o serviço, mas adiante) Claro que não. As pessoas também têm direito a comer, e o Estado não anda para aí a gerir padarias. Aliás, devia privatizar as escolas, p.ex., para se livrar do peso da administração das mesmas e patrocinar aqueles que não tivessem dinheiro para as frequentar.

Tem o Rivoli de "dar lucro"? Eu acho que não deve dar prejuízo. Vejamos: se não for rentável quem paga o deficit somos nós, com os impostos. E pagamos para quê? Para que companhias de teatro representem coisas que ninguém vai ver? Eu acho mal. Não é um burocrata qualquer que deve decidir qual o espetáculo de qualidade e qual não, deve ser o público. Porque não é o burocrata que paga o teatro. Somos todos nós. Por isso devemos ser nós a decidir o que é bom e o que não é. Acho politicamente muito infeliz impôr uma política cultural às nossas bolsas.

 

Deixem ver o que vai daí. Daqui a quatro anos fazer-se-á o balanço do contrato. E veja-se que ele é muito exigente… Quem o ganhar «fica obrigada a programar 300 dias por ano de espectáculos, entre as quais duas grandes produções, um mínimo de quatro produções experimentais, espectáculos para crianças de acordo com o curriculum escolar, acções de formação nas artes performativas, oferta de bilhetes para escolas e instituições da autarquia e recrutamento de pessoal oriundo da área metropolitana do Porto.»
E parece-me que se o Rivoli se tornar mais parecido com o Coliseu, esse sim privado e gerido com vista ao público que atrai, o Porto sairá mais rico.

ADENDA: Vale a pena ler o que dizem sobre isto, João Miranda, Carlos Furtado (não obstante, ao lado termos as confusões de MMPinto), Pacheco Pereira e já agora, uma opinão de esquerda


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