Intervenções
Quando se complicam as coisas, dá para o torto. E na Economia, não é preciso muito para complicar. O facto de a Economia ser um sistema dinâmico, em que os actores se comportam como querem e não como alguém possa prever, leva a que imposições "de cima" tendam a não produzir os efeitos desejados.
É por isso que sou contra a interferência do Estado na Economia - e na vida pessoal dos seus actores, já agora.
Vai se percebendo isso noutros quadrantes ideológicos. Há dias, JPH, no Glória Fácil, propôs algo de "simples": obrigar as empresas, com mais de 100 empregados, a terem uma creche, com um determinado horário, pois tem a «impressão que são equipamentos que jogam a favor de aumentos na produtividade».
Depois de algum debate blogosfera fora - destaco o comentário de João Caetano Dias - JPH muda um bocado a sua proposta. No fundo percebeu que as coisas não são assim tão fáceis de orquestrar (quem paga?, quantos empregados deve ter a empresa?, que horário?). Assim, refaz a sua proposta. Vale a pena citar:
«1. As empresas são obrigadas a dispor de creches e ATL para os filhos dos seus empregados.
2. Os trabalhadores pagam por esse serviço de modo a que ele não dê prejuizo. A actualização das mensalidades será estabelecida em função das actualizações salariais.
3. A qualidade dos serviços é fiscalizada pelos serviços competentes do Estado.»
E bingo, acaba de criar mais um imposto para quem tem filhos: pagar a Creche da sua empresa, sem poder escolher a melhor do mercado.
Prevê-se a próxima evolução: só usa essa creche o trabalhador que quer… Isto é, só existe a Creche onde os trabalhadores querem. O que leva a uma questão: quem quererá abrir uma Creche numa empresa sem saber se ano após ano terá clientes, i.e. financiamento? E é ou não a empresa obrigada a abrir essa Creche? Afinal, a lei não serviria para nada, porque não era mais do que algo, que não deve precisar de lei alguma: a liberdade das pessoas se juntarem para criarem o prestador de serviço que queiram…
Acho que JPH vai acabar como Pierre Menard, autor do Quixote, que publicou um «Um artigo técnico sobre a possibilidade de enriquecer o xadrez eliminando um dos peões de torre. Menard propõe, recomenda, discute e acaba por rejeitar esta inovação.»(in Jorge Luís Borges, Ficções)

