À Vontade do Freguês






16 February, 2007

Que solução para o aborto?

Uma vez dada a vitória do Sim, podia-me retirar e deixar a regulamentação da nova lei aos defensores do mesmo Sim. Parece ser essa a posição do CDS - como é contra o aborto, votará contra qualquer lei apresentada na AR.

Eu prefiro, resignado com a situação, arranjar maneira de ela me agradar mais. E como me agradaria mais o facto de se ter tomado a decisão de legalizar o aborto em Portugal…

Por questões várias, penso que não devo haver aborto a pedido (excluindo pois, evidentemente, o aborto terapêutico) no SNS: porque o SNS já é uma borracheira, de per se; porque não sei como podem uns financiar acções de que discordam profundamente, de outros; porque se afinal o aborto é uma questão de consciência, então não tem nada que ver com políticas públicas; e porque, em geral, tenho aversão a direitos públicos adquiridos.

Ora, passar o aborto para as mãos de privados, tem uma particularidade muito infame - e custa falar disso. É que um empresário do aborto não tem nenhuma motivação para que haja poucos abortos, evidentemente. E por isso, tudo fará para que seja procurado e para, uma vez procurado, não perder o cliente. Tudo isto é natural, não critico isso, se quisesse fazer dinheiro com abortos era exactamente assim que faria, e uma vez que passa a ser legal fazê-lo em Portugal, é natural que surjam candidatos. Sendo assim, como estou convencido que um aborto é uma actividade a todo o custo evitável (e não é por ser legal, que vou mudar de ideias), procuro uma solução que garanta duas coisas: poucos abortos, nenhum incentivo aos mesmos, e abortos fora do sistema público.

Arranjei uma solução que não me agrada, economicamente. Tem quase tudo de mau que critico noutras áreas: mete burocracias, regulamentação, etc. Mas para o aborto, que, repito, tenho como uma agressão a um ser humano, nada me parece demais.

O que proponho pois, é que sejam empresas privadas a servir o mercado de abortos que exista em Portugal, mas que haja uma consulta obirgatória de aconselhamento, e um período de reflexão. Para garantir, no entanto, que o aconselhamento seja feito de forma decente e honesta, terá de ser feito fora da clínica em que se vai praticar o aborto. Na Alemanha, p.ex., é exactamente assim que funciona: a mulher terá de demonstrar que frequentou uma consulta de aconselhamento junto de entidades reconhecidas pelo Minstério dos Assuntos Sociais de cada Bundesland. Acho que devia ser assm também. Essas entidades seriam, em todos os aspectos, independentes da industria do aborto (na Alemanha muitas estão ligadas à Igreja, p.ex.) e aconselham a mulher sobre:

*aspectos psicológicos, emocionais, médicos, etc, relacionados com a gravidez e o aborto

*apoios sociais

*(porque não?) custos de um aborto, possíveis comparticipações - com que discordo, mas a haver… 

E pronto, vai daí tem um período de 3-5 dias para decidir, e pode abortar, sem medo…

 

Enfim, fica a tentiva. Isto tem aspectos que me desagradam - a começar pelo aborto - mas não vejo outra forma.


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