O que é preciso, é saudinha…
O Tiago Barbosa Ribeiro lança algumas questões, como ponto de partida para um debate sobre o sistema de saúde norte-americano. Debatamos, portanto.
Acho particularmente interessante o facto de o Tiago considerar uma falha democrática o facto de um país não ter cuidados universais de saúde. Se democracia é o poder do povo, e se esse povo, via representantes democraticamente eleitos, decidir não ter cuidados universais de saúde, não vejo onde falha a democracia. (Isto levaria nos a outra interessantíssima discussão, sobre o que podem ou não as maiorias decretar, e onde acaba a democracia e começa a tirania da maioria - mesmo que democraticamente eleita. Tenho que para mim que, salvo raríssimas excepções, a não prestação de dado serviço pelo governo, nunca é não-democratica.) O que o Tiago, pelos vistos, defende é uma democracia socialista, em que os indivíduos são obrigados a suportar certos serviços do Estado, a bem do bem comum. Percebo, mas há outras formas de democracia.
Quanto aos norte-americanos não segurados, vale a pena ver este filmezito. Os números têm que ser vistos à luz de quem tem porque não quer, e quem não tem porque não consegue pagar. O objectivo dum sistema opt-out ou opt-in, é justamente responsabilizar as pessoas pelas suas escolhas. E eu acho que pode ser escolha de alguém, não ter cuidados de saúde garantidos. De resto, nos EUA é ilegal um hospital não aceitar um paciente em condições de emergência. Assegurado ou não.
Não conheço o suficiente dos números norte-americanos para saber as razões que levam certas classes sociais a ter esperanças de vida inferiores a outras. Por exemplo a contracção de diabetes pode ter razões genéticas ou de estilo de vida. No entanto, num sistema como o nosso quem tem dinheiro para se safar das listas de espera para ir fazer operações no estrangeiro ou em França também viverá mais que o pobre que está sujeito ao "sistema gratuito". Nem é preciso ser rico, Jorge Coelho meteu uma cunha com Jacques Chirac.
No entanto a causa de morte número um nos EUA são doenças do coração, claramente associadas a uma alimentação e um estilo de vida "pouco saudáveis" - em suma, como o meu. Mortes que, portanto, pouco têm que ver com um bom ou mau sistema de saúde mas apenas com as pessoas tomarem, livremente, escolhas que condicionam a sua vida.
Quanto aos medicamentos duas questões: primeiro o Medicare dos EUA não pode negociar os preços com as farmaceuticas, o que impede de baixar os preços para os assegurados por esta via. Segundo, como os EUA têm um mercado livre de medicamentos, os consumidores lá acabam por subsidiar todos os mercados - como o nosso - em que essas mesmas empresas têm que vender abaixo do preço de mercado porque os governos fixam preços para os medicamentos.

