À Vontade do Freguês






20 July, 2007

O que é preciso, é saudinha…

O Tiago Barbosa Ribeiro lança algumas questões, como ponto de partida para um debate sobre o sistema de saúde norte-americano. Debatamos, portanto.

Acho particularmente interessante o facto de o Tiago considerar uma falha democrática o facto de um país não ter cuidados universais de saúde. Se democracia é o poder do povo, e se esse povo, via representantes democraticamente eleitos, decidir não ter cuidados universais de saúde, não vejo onde falha a democracia. (Isto levaria nos a outra interessantíssima discussão, sobre o que podem ou não as maiorias decretar, e onde acaba a democracia e começa a tirania da maioria - mesmo que democraticamente eleita. Tenho que para mim que, salvo raríssimas excepções, a não prestação de dado serviço pelo governo, nunca é não-democratica.) O que o Tiago, pelos vistos, defende é uma democracia socialista, em que os indivíduos são obrigados a suportar certos serviços do Estado, a bem do bem comum. Percebo, mas há outras formas de democracia.

Quanto aos norte-americanos não segurados, vale a pena ver este filmezito. Os números têm que ser vistos à luz de quem tem porque não quer, e quem não tem porque não consegue pagar. O objectivo dum sistema opt-out ou opt-in, é justamente responsabilizar as pessoas pelas suas escolhas. E eu acho que pode ser escolha de alguém, não ter cuidados de saúde garantidos. De resto, nos EUA é ilegal um hospital não aceitar um paciente em condições de emergência. Assegurado ou não.

Não conheço o suficiente dos números norte-americanos para saber as razões que levam certas classes sociais a ter esperanças de vida inferiores a outras. Por exemplo a contracção de diabetes pode ter razões genéticas ou de estilo de vida. No entanto, num sistema como o nosso quem tem dinheiro para se safar das listas de espera para ir fazer operações no estrangeiro ou em França também  viverá mais que o pobre que está sujeito ao "sistema gratuito". Nem é preciso ser rico, Jorge Coelho meteu uma cunha com Jacques Chirac.

No entanto a causa de morte número um nos EUA são doenças do coração, claramente associadas a uma alimentação e um estilo de vida "pouco saudáveis" - em suma, como o meu. Mortes que, portanto, pouco têm que ver com um bom ou mau sistema de saúde mas apenas com as pessoas tomarem, livremente, escolhas que condicionam a sua vida.

Quanto aos medicamentos duas questões: primeiro o Medicare dos EUA não pode negociar os preços com as farmaceuticas, o que impede de baixar os preços para os assegurados por esta via. Segundo, como os EUA têm um mercado livre de medicamentos, os consumidores lá acabam por subsidiar todos os mercados - como o nosso - em que essas mesmas empresas têm que vender abaixo do preço de mercado porque os governos fixam preços para os medicamentos.


5 Comments »

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  1. “Segundo, como os EUA têm um mercado livre de medicamentos, os consumidores lá acabam por subsidiar todos os mercados - como o nosso - em que essas mesmas empresas têm que vender abaixo do preço de mercado porque os governos fixam preços para os medicamentos.”

    Quase dá vontade de rir. Repara no net income em http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_pharmaceutical_companies

    Comment by Rui Ferreira — 20 July, 2007 @ 15:45

  2. Não percebo a relação. Estás a dizer que elas ganham “demais” e por isso podiam cortar nos preços? Mas quem é que fixa quem ganha “demais”? Quanto é “demais”?
    Facto é que com preços controlados abaixo de preço de mercado, em certos mercados, os mercados sem preços fixados ficam com o encargo de subsidiar os mercados subsidiados. Isso não é bom nem mau, moralmente. É mesmo assim, só.

    Comment by ms — 20 July, 2007 @ 16:42

  3. A questão do sistema de saúde americano é bastante mais complicada que isso. O facto é que 18 mil pessoas morrem por ano _porque não podem pagar_ (e não por escolha — esses fazem o que bem entenderem) um seguro de saúde. Isto é algo gravíssimo.

    Adicionalmente, os preços de um tratamento são estupidamente inflaccionados porque se assume que toda a gente tem seguro de saúde. $2000 pelo uso de uma ambulância, $3000/dia pelo aluguer por uma cama de hospital, etc.. Ou seja, embora o Hospital não posso negar o auxílio, a pessoa irá ficar a vida toda a pagar algo que é dos cuidados mais básicos que o Estado deve prestar, seja em que regime democrático for: saúde. A visão neo-liberal do cada um por si é muito bonita na teoria. Está ao nível do comunismo. Na prática, não funciona.

    Portanto, em suma, dezenas e dezenas de países (como é o caso da Escandinávia) têm um sistema de saúde pródigo e que pode ser complementado com um seguro de saúde. No entanto, existe sempre o serviço público, tenha ou não se tenha dinheiro. Para mim isto é algo óbvio. Não deverá ter toda a gente direito a um hospital, com ou sem dinheiro?

    Comment by Mário Lopes — 21 July, 2007 @ 02:00

  4. “primeiro o Medicare dos EUA não pode negociar os preços com as farmaceuticas, o que impede de baixar os preços para os assegurados por esta via. Segundo, como os EUA têm um mercado livre de medicamentos”

    não têm não - se o Medicare comparticipa os medicamentos para alguns doentes, isso (se tudo o resto se mantiver igual) faz com que os preços dos medicamentos sejam mais altos do que seriam num “mercado livre”

    Comment by Miguel Madeira — 22 July, 2007 @ 19:54

  5. Miguel Madeira,

    Num “mercado livre”, que na verdade nunca é livre, as farmacêuticas fazem cartel e sobem todos os preços. Portanto a ideia de Adam Smith do mercado livre é tão utópica como a do comunismo. O Estado deverá regular isto.

    Comment by Mário Lopes — 22 July, 2007 @ 20:40

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