Orgulho Hetero
Uma campanha da Tagus, está a causar polémica. O slogan “orgulho hetero” parece causar algum celeuma…
A campanha originou uma queixa no ICAP (Instituto Civil da Autodisciplina da Publicidade), além de uma contra-campanha da associação Panteras Rosa. Para Sara Martinho, que esteve na origem da queixa, a campanha «brinca com uma realidade demasiado séria e referindo-se a uma característica, a heterossexualidade, que sendo dominante e aceite por todos à partida, não discriminada, não precisa de causa ou manifesto».
Das Panteras Rosa, pela voz de Sérgio Vitorino, ouvimos que «não há equivalência entre orgulho gay e orgulho hetero. O orgulho hetero não tem de ser afirmado», já que «além de ser hegemónico», faz parte da «linguagem de um partido de extrema-direita».
Para João Teixiera Lopes, do BE «O incitamento ao orgulho hetero caminha lado a lado com a linguagem do ódio e esconde o que, desde há milénios, significa a opressão ou a pura eliminação de todos os que ousaram tornar públicas as suas opções sexuais”, considera o ex-deputado num artigo publicado ontem no site Esquerda.net, que remata, afirmando que “a cerveja Tagus tornou-se um signo do poder homofóbico. Quem a beber é cúmplice».
Evidentemente que cada um sabe o que entender sobre esta campanha. Ainda assim: não há nela incitamento ao ódio. Não há nela incitamento à violência. Usa, é certo, uma linguagem típica de certos grupos minoritários (os grupos “LGBT”) e aplica-a a um grupo maioritário (os não-LGBT - ainda que deva haver transsexuais heterosexuais, ou não?). Mas a linguagem não tem dono. A ideia de que se poderia proibir o uso da linguagem dos grupos LGBT, porque é usada numa campanha com o alvo não-LGBT, apenas porque este público-alvo não carece de ter causa ou manifesto, é tão ridícula como dizer que o Benfica não pode fazer publicidade porque terá 6 milhões de sócios. Se a linguagem faz ou não parte dum partido de extrema-direita (ou, já agora, se “as linguagens” “Orgulho Gay”, “Orgulho Branco” e “Orgulho Hetero”, não partem todas duma, mesma, visão foleira da sociedade e dos indivíduos), é uma questão interessante. Mas não devia preocupar o ICAP (que faz exactamente o quê, já que falamos nele Todos os dias conheço mais um organismo… Isso sim, preocupa-me.). E repito, “Orgulho Hetero” é tão “Orgulho Branco”, como é “Orgulho Gay”. A linguagem e as ideias subjacentes são as mesmas. Partem, por exemplo, da ideia que alguém se pode definir como “homosexual” ou “heterosexual”, apenas porque pratica actos homosexuais, ou actos heterosexuais. Como se a vida fosse isso, e nós nos devessemos organizar em grupos consoante as actividades que temos na cama, ou o amor que sentimos ser por esta ou aquela pessoa.
Eu nunca gostei especialmente de Tagus, e não vai ser daqui que mudo, para melhor ou pior. Já João Teixeira Lopes, terá que ter cuidado da próxima vez que vir uma campanha virada para o público LGBT. Nesse dia verá uma campanha heterefóbica.
Se não se calar, sera cúmplice.
Nota final: A Tagus já contratacou. A verdade é que és livre de escolher. És livre de sair e de te divertires com quem tu quiseres. És livre de te assumires como és. A verdade é que és livre de dizer o que pensas e de te manifestares a favor ou contra esta campanha. A verdade é que és livre de ser feliz. Nem mais.

