Directas para o lixo
A “mania” das directas que o PS trouxe para Portugal e que também infectou o PSD e o CDS, é talvez o pior equívoco político-partidário do início deste nosso século.
Com meia dúzia de argumentos fáceis se convencem os cépticos de que o método de eleição do líder partidário por todos os militantes é mais democrático, liga mais as direcções às bases, é mais moderno, etc, etc, etc. Hoje, após a experiência que vivi dentro do CDS, e em vista do que se adivinha para o PSD posso dizer que discordo completamente deste método de eleição.
Antes de mais convém perceber que nenhum método (directas versus congresso) é mais democrático que outro. Eleger um líder de forma directa ou indirecta é igualmente democrático (veja-se que em Portugal o chefe de governo é nomeado e não eleito), até porque ninguém é obrigado a militar num partido, logo só participa se aceitar as regras internas desse partido - tomadas por maioria, supõe-se.
De seguida a questão da proximidade dos líderes com as bases. Creio que é uma falsa questão, porque os congressistas que elegem o líder em congresso são igualmente, em boa parte, militantes de base e eleitos por esses. A eleição directa não garante que o mais votado é que está mais próximo das bases.
Mas creio que o efeito mais danoso na coesão interna e na imagem dum partido é o desgaste que um processo eleitoral directo necessariamente acarreta. A experiência mostra que num congresso partidário se concentram todos os ataques, toda a roupa suja, toda a cisão possível dum partido. Explode nessas horas, mas quando termina os partidos têm tendência a unir-se de volta do seu líder. Os ressentimentos não se arrastam e os problemas são resolvidos “dentro de casa”. Os discursos são avaliados no imediato e por todos os congressistas e todos têm acesso à mesma informação. Há os “jogos de bastidor”, é certo, mas discursos e comportamentos “indecentes” podem ser denunciados do palanque para todos os congressistas apreciarem. Ribeiro e Castro, por exemplo, achou indecente que Telmo Correia apresentasse o João Almeida como putativo secretário-geral ao congresso de Lisboa do CDS. Disse-o ao congresso e cada congressista terá avaliado como quisesse os inputs fornecidos.
Em eleições directas, tudo é mais manhoso. As voltas dos líderes às bases potenciam discursos de diz-que-disse, ou diz-que-vai-fazer, que criam assimetria de informação. Um candidato não tem como se defender de algo que o outro disse numa reunião em que não esteve representado. Não pode, igualmente, contrapor propostas ou retóricas que nunca ouviu. Os debates televisivos multiplicam a exposição negativa da “lavagem de roupa suja” por todo o tempo que uma campanha interna dure.
Não há um momento em que é o tudo ou nada, não há uma concentração de esforços, tudo dura mais e isso na vida partidária quer dizer mais imagem negativa.
Hoje, não contam comigo para cavalgar a onda das directas. Os congressos são, curiosamente, muito menos permeáveis à manipulação e ao poder das estruturas. São mais carismáticos e mais imprevisíveis. Vamos ver o que será do PSD nestas semanas…

