À Vontade do Freguês






29 May, 2008

O dinheiro, malvado

E o grande problema para a compreensão de muitos efeitos económicos é o dinheiro. É mesmo!
Quando Bruto da Costa diz que o problema está nos salários, não percebe que os salários em €uro, são uma abstração. Se os salários subirem, mas não subirem os bens produzidos por eles, de nada serve esse aumento.
Tudo se torna mais fácil se tirarmos o dinheiro da equação. Vamos pensar em bens. Os trabalhadores duma determinada empresa (produtora de carros, p.ex.), ao invés de serem pagos em Euro, são pagos com um cabaz de bens - imagine o leitores os bens que quiser, que seriam transacionáveis no mercado por tudo o mais que lá houvesse. Os capitalistas da empresa, trocariam os carros que a empresa produz pelos bens com que pagariam os trabalhadores, mais aqueles que necessitam para operar a fábrica, bem como o seu próprio salário e os lucros para os investidores.
Tal como num mercado com moeda, num mercado com bens, há preços para os vários bens disponíveis, que se controlam pela oferta e a procura. Só que ao invés de carregar notas ou moedas, os próprios bens têm que ser carregados e trocados - se o leitor ao chegar aqui ainda não perceber porque é que o dinheiro é uma benção face ao sistema apresentado, pode parar de ler aqui: também não vai perceber o resto.
A questão principal no entanto prende-se com os salários: a solução de BdC para a pobreza é aumentar os salários. Pois aumentem-se então os salários dos nossos trabalhadores da empresa de automóveis. Se esse aumento não for acompanhado dum aumento de produtividade (ou seja a empresa continua a produzir o mesmo número de bens) o que acontece é que a empresa deixa de ter condições de funcionar, e teria que fechar.
Mas vamos dar novo passo: ao invés de apenas aumentar o salário dos nossos trabalhadores-exemplo, aumentamos o de toda a economia considerada: cada trabalhador receberia mais uma camisola de lã ao fim do mês, ou seu equivalente em outros bens. São propostas como as que o BE defendeu no passado aquando da “Marcha do Emprego”: Aumentem-se os salários, ou baixem-se as horas de trabalho sem baixa correspondente no salário. Como temos uma economia monetária, até parece porreiro: mais dinheiro ao fim do mês, mais riqueza. Só que se não nos iludirmos com a presença do dinheiro, e pensarmos em bens, tudo fica mais claro: se a nossa economia subir os salários em bens, mas se não forem produzidos mais bens, como podem os nossos trabalhadores receber mais? Como podem os nossos trabalhadores receber mais, se não existe mais que lhes dar?
É por isso que é irresponsável e ignorante defender um aumento salarial como fim da pobreza. O que precisamos é de maior produtividade, maior eficiência nos processo, trocas mais rápidas e informadas. Em suma: menos socialismo.

Nota final: quando o BCE ou a FED baixam as taxas de juro, ou injectam moeda na economia, estão a fazer crescer a massa monetária disponível, logo a aumentar o número de euros ou doláres que competem para a aquisição de bens. No fundo estão a dizer que há mais bens disponíveis, quando não os há. A isso chama-se inflação. Os preços sobem, as poupanças ardem. Obrigadinho.

Ler também: Socialismo bruto, Ainda o Socialismo bruto, Pleno Emprego, perigosa Utopia.


7 Comments »

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  1. Apenas um obrigado; ainda há pessoas razoáveis como o sr neste país; tenho que confessar que por vezes desespero…

    só uma nota: a única maneira de os salários aumentarem, é qd existe um aumento da produtividdade ( e não o contrário, como muitos pensam); e para que haja um aumento de produtividade, tem que existir, à partida, um aumento do capital per capita, ie, um aumento da poupança por parte dos particulares e empresários.

    É por isto que é fundamental baixar os impostos, tendecialmente para zero, de forma a que as pesssoas possam poupar…

    Comment by Miguel Almeida — 29 May, 2008 @ 14:56

  2. Obrigado pelo comentário. Só não percebi porque diz que «para que haja um aumento de produtividade, tem que existir, à partida, um aumento do capital per capita»

    Cumprimentos

    Comment by ms — 29 May, 2008 @ 15:05

  3. “Se esse aumento não for acompanhado dum aumento de produtividade (ou seja a empresa continua a produzir o mesmo número de bens) o que acontece é que a empresa deixa de ter condições de funcionar, e teria que fechar.”

    Ou continuar a trabalhar, mas com menos lucros.

    “se a nossa economia subir os salários em bens, mas se não forem produzidos mais bens, como podem os nossos trabalhadores receber mais?”

    Reduzindo os lucros (e juros, rendas fundiárias, etc) em bens?

    Comment by Miguel Madeira — 30 May, 2008 @ 01:26

  4. Podemos partir do princípio que os lucros da empresa estão ajustados à expectativas dos investidores, i.e., à relação risco-rendimento. Se baixar os lucros altera essa relação e é natural que os investidores se afastem e procurem novas oportunidades de negócio.
    No primeiro caso a fábrica fecha, no segundo o capital foge para outra economia, no estrangeiro, ou outras aplicações financeiras que não industriais e a economia considerada ressente-se também.

    Comment by ms — 30 May, 2008 @ 10:22

  5. Se o ms tivesse escrito “algumas empresas deixam de ter condições de funcionar, e teriam que fechar”, eu concordaria.

    Mas pelo que escreveu, dava a entender que todas as empresas iriam fechar se aumentassem os salários (isto é, que a oferta de capital seria perfeitamente elástica)

    Comment by Miguel Madeira — 30 May, 2008 @ 13:04

  6. Tem razão, estava a manter constantes as restantes variáveis. Ainda assim, “É natural que os investidores se afastem” é diferente de “vão fazê-lo necessariamente”.
    Abstraindo-me da questão do post e olhando para o caso português, repare na injustiça: o capital é muito mais móvel que o trabalho, as possibilidades são muito maiores para que o capital procure as aplicações mais rentáveis. Já os trabalhadores em caso de quererem mudar de emprego, por falta de flexibilidade do mercado de emprego, têm sempre mais dificuldade de encontrar espaços vagos ou vazáveis.

    Comment by ms — 30 May, 2008 @ 17:18

  7. Caro ms,

    para poder haver um aumento da produtividade na economia nacional tem que existir primeiro um aumento de capital per capita.

    Este aumento de capital é que vai permitir aos trabalhadores terem uma maior produtividade nas empresas, e por consequência uma subida de salários.

    é por isto que é tão importante, se queremos resolver a situação dramática deste país, será o de começarmos a reduzir as despesas nacionais do estado, para podermos baixar os nossos impostos sufocantes.

    Comment by Miguel Almeida — 1 June, 2008 @ 01:08

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